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Ter escola não é suficiente: índice mede se infraestrutura social chega à população


Créditos: Foto: FreePik

Construir escolas não garante aprendizado. Instalar postos de saúde não assegura atendimento. Erguer casas não significa moradia digna. É a partir dessa distinção — entre a existência de infraestrutura e seus efeitos concretos na vida das pessoas — que o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) lançou, em 16 de março, o Índice Confea de Infraestrutura do Brasil, o Infra-BR.

A ferramenta mede, de forma integrada, as condições de infraestrutura nos 27 estados em seis eixos: energia e conectividade; mobilidade; água; saneamento básico; meio ambiente e resiliência; e bem-estar social e cidadania. Os dados estão disponíveis em uma plataforma digital interativa, com rankings, mapas e bases abertas para download.

"A infraestrutura é um desafio, mas o maior desafio é identificar onde aplicar os recursos: em qual estado, em qual segmento", afirma o presidente do Confea, eng. telecom. Vinicius Marchese. "Com base em indicadores, será possível distinguir o que é urgente do que pode ser planejado no médio prazo, fortalecendo a lógica de priorização baseada em evidências."

parque urbano


Além das obras: o eixo que mede resultado
O eixo de bem-estar social e cidadania é o que mais se distancia das métricas tradicionais de infraestrutura. Em vez de contar quilômetros de estrada ou megawatts instalados, ele pergunta: o que toda essa estrutura está produzindo na vida das pessoas?

"Medir bem-estar social e cidadania em um índice de infraestrutura significa verificar se os ativos físicos — como escolas, unidades de saúde, moradias, equipamentos culturais e espaços públicos — estão se convertendo em condições efetivas de vida, acesso a direitos e oportunidades, e não apenas em estoque de obras ou extensão de redes", explica Ricardo Chaves, pesquisador que integrou a equipe responsável pelos indicadores.

O eixo se organiza em seis subáreas: saúde, educação, moradia, infraestrutura urbana, assistência social e cultura, lazer e esporte. Em cada uma delas, os indicadores foram escolhidos para revelar não só o que existe, mas o que funciona.

Na educação, por exemplo, o índice mede a proporção de escolas com quadra esportiva e com biblioteca ou sala de leitura — condições que viabilizam um aprendizado mais completo do que a sala de aula convencional oferece sozinha. Na cultura, a quantidade de museus por município sinaliza a presença de equipamentos culturais estruturantes.

Na moradia, os indicadores vão além do número de unidades habitacionais construídas. Inadequação das paredes, presença de banheiro exclusivo, déficit habitacional e existência de calçamento no entorno das residências compõem um retrato mais fiel das condições reais de vida. Na saúde, o total de equipamentos médicos, leitos e estabelecimentos permite identificar a capacidade instalada do sistema — e seus vazios.

"Ao estruturar o eixo dessa forma, o índice explicita que a infraestrutura só cumpre plenamente seu papel quando sustenta, no território, condições mínimas de bem-estar, cidadania e redução de desigualdades, em linha com agendas contemporâneas de políticas públicas baseadas em evidências", avalia Sergio Marangoni, também pesquisador da equipe.

Medir o que não se vê diretamente
Um dos desafios metodológicos do eixo foi traduzir dimensões subjetivas — como sensação de segurança ou qualidade de vida — em indicadores objetivos e comparáveis entre estados.

A solução foi trabalhar com o que os pesquisadores chamam de proxies infraestruturais: em vez de medir percepções, o índice mede as condições materiais e institucionais que tornam esses direitos possíveis na prática.

"O principal desafio técnico foi traduzir um universo amplo e heterogêneo de informações sociais em um conjunto enxuto de indicadores que fossem comparáveis entre unidades da federação, estatisticamente robustos e conceitualmente fiéis à ideia de infraestrutura voltada ao bem-estar", conta Chaves.

Para isso, a equipe harmonizou bases de dados com naturezas e escalas distintas — IBGE, Inep, DataSUS CNES, CadSUAS e cadastros de equipamentos culturais — transformando-as em indicadores com a mesma direção: valores mais altos sempre correspondem a melhor desempenho.


Desigualdades que se acumulam
O Infra-BR foi desenvolvido em parceria com pesquisadores do IPS-Brasil e inspirado em experiências internacionais. Sua principal aposta é a integração entre os seis eixos — o que permite enxergar como déficits em diferentes setores se combinam e se agravam mutuamente.

"A estrutura integrada do Infra-BR possibilita analisar efeitos em cascata entre dimensões — por exemplo, como falhas em saneamento e água podem repercutir em saúde, ou como déficits habitacionais e baixa cobertura de equipamentos urbanos se relacionam com vulnerabilidades ambientais", explica Marangoni. "Isso aproxima a avaliação de infraestrutura de abordagens sistêmicas de risco e resiliência."

Para a doutora em Ciência Política Telma Hoyler, que também participou da elaboração do índice, a força da ferramenta está justamente na sua capacidade de revelar disparidades territoriais de forma objetiva — sem impor soluções padronizadas. "Indicadores permitem monitoramento contínuo e comparabilidade temporal, contribuindo para transformar políticas pontuais em políticas de Estado, sustentadas por evidências e monitoramento permanente", afirma.

A plataforma será atualizada periodicamente, permitindo acompanhar a evolução de cada estado ao longo do tempo. O acesso é gratuito e inclui a possibilidade de comparar indicadores, visualizar mapas e baixar os dados em formato aberto.
 

Beatriz Craveiro / Equipe de Comunicação do Confea

 

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