Violência doméstica e seus impactos no ambiente de trabalho é tema de painel do Encontro sobre ambientes de trabalho e seguros

Coordenador do Ceest, Eng. Seg. Trab. Alexandre Eberle Alves, abriu o painel. Créditos: Arquivo CREA-RS
No primeiro painel do evento promovido pelo CREA-RS, por meio do Programa Mulher e da Câmara Especializada de Engenharia de Segurança do Trabalho, em parceria com a Secretaria da Mulher do RS, trouxe a violência doméstica e seus impactos no ambiente de trabalho.
O Dia Internacional da Mulher tem origem em uma luta histórica por melhores condições de trabalho, direito ao voto e acesso à saúde. Mais do que uma data simbólica, ele remete a episódios marcantes, como o incêndio de 1911 em uma fábrica têxtil, que evidenciou a necessidade urgente de avanços na legislação e na proteção das trabalhadoras.
Ao abordar o tema, o Engenheiro de Segurança do Trabalho Alexandre Eberle Alves, coordenador da EEST trouxe uma reflexão atual sobre o comportamento humano no ambiente laboral e os fatores que ainda adoecem profissionais, especialmente as mulheres.

Segundo ele, embora a legislação tenha avançado ao longo das décadas, o cuidado com as pessoas precisa ir além do cumprimento das normas. “Existe algo maior do que a lei: a forma como as relações de trabalho são construídas no dia a dia”, destacou.
“Um dos pontos centrais da discussão é a compreensão dos papéis profissionais. Em muitos contextos, ainda há confusão entre o que é responsabilidade do trabalhador e o que é exigido de forma indevida”, alertou.
Nesse sentido, o coordenador reforça que o primeiro passo é garantir a entrega das próprias atribuições. A partir disso, torna-se possível estabelecer limites mais claros e saudáveis, evitando sobrecargas e conflitos.
Ele também chamou atenção para interpretações equivocadas da NR-1, ressaltando a importância de ampliar o entendimento sobre a legislação e sua aplicação prática nas organizações.
"O trabalho exerce funções essenciais que vão além da geração de renda, como o papel econômico, responsável pelo sustento e pela segurança financeira; papel social, que promove interação, pertencimento e construção de vínculos; e papel psicológico, ligado à realização pessoal, propósito e identidade", detalhou.
De acordo com o Engenheiro, para as mulheres, esses aspectos assumem ainda mais relevância. O trabalho, muitas vezes, representa uma oportunidade de autonomia e de rompimento com ciclos de violência e dependência.
A dimensão social do trabalho foi destacada como um fator determinante para a saúde. Ambientes com relações fragilizadas tendem a gerar adoecimento, enquanto espaços colaborativos fortalecem o bem-estar e a produtividade.
"Além disso, a dimensão econômica não se limita ao salário. Segurança financeira e a possibilidade de alcançar metas pessoais e profissionais também são componentes essenciais para a qualidade de vida", apontou.
Depois ele trouxe alguns dados que reforçam a urgência da discussão do tema. “A realidade vivida por muitas mulheres evidencia o impacto direto das relações pessoais e profissionais em suas trajetórias. 23% das mulheres vítimas de violência já recusaram oportunidades de emprego por influência do parceiro; em média, vítimas chegam a se ausentar 18 dias do trabalho.
Os dados mostram como a vulnerabilidade social e emocional pode afetar diretamente a inserção e a permanência da mulher no mercado de trabalho.
Diante desse cenário, fortalecer a presença feminina em cargos de liderança é um passo essencial para transformar culturas organizacionais e promover ambientes mais justos.
Nesse contexto, a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Assédio (Cipa) se destaca como um agente estratégico. “Ao atuar na prevenção e na promoção de ambientes seguros, a comissão pode contribuir diretamente para a saúde, o respeito e a valorização das mulheres no trabalho”, finalizou.
AMBIENTE DE TRABALHO COMO ESPAÇO ESTRATÉGICO DE ACOLHIMENTO

Segunda palestrante no mesmo painel, a delegada Márcia Scherer trouxe reflexões sobre a realidade enfrentada por mulheres em situação de violência e abrindo sua fala já com um dado alarmante.
"Vocês sabiam que entre 80 mulheres vítimas de feminicídio, apenas 4 possuíam medida protetiva, o que representa apenas 5% dos casos. Setenta e seis mulheres não haviam comunicado a situação de violência às autoridades policiais, evidenciando a subnotificação e a dificuldade de acesso à rede de proteção, que se dá por diversos motivos.”
Dentro deste contexto, mencionou a importância do ambiente de trabalho como espaço estratégico de acolhimento e identificação dos primeiros sinais de violência doméstica.
Segundo ela, as empresas têm papel fundamental ao observar possíveis indícios apresentados pelas trabalhadoras, compreendendo que a violência, embora muitas vezes originada no ambiente doméstico, impacta diretamente a vida profissional.
“Temos o suporte normativo previsto na NR-1, desde sua alteração, no papel das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Assédio (Cipa), que podem atuar como canais de apoio, contribuindo para a construção de ambientes mais acolhedores, de escuta ativa.”
Outro ponto enfatizado foi a necessidade de ampliar o debate, incluindo os homens nessa discussão. Para ela, o enfrentamento à violência de gênero não se dará apenas com o fortalecimento das mulheres, mas também com o engajamento masculino, promovendo uma mudança cultural baseada em empatia, responsabilidade e cuidado. “É preciso preparar os homens para essa transformação”, ressaltou, ao abordar, inclusive, aspectos como o suicídio entre autores de feminicídio e a necessidade de prevenção mais ampla.
Para a delegada, o combate à violência não se limita à atuação policial ou ao endurecimento das penas. “Embora o feminicídio já possua uma das punições mais severas do país, podendo chegar a até 40 anos de reclusão, ele ainda segue acontecendo. Então, trata-se, sobretudo, de uma questão cultural, que exige o envolvimento conjunto para a construção de uma sociedade mais justa.”
Por fim, apresentou iniciativas voltadas à interiorização das políticas públicas, incentivando a criação de coordenadorias municipais da mulher em todo o Rio Grande do Sul, ampliando os acessos às redes institucionalizadas de apoio e proteção. Encerrou sua participação com um chamado à ação: que cada organização assuma seu papel nesse processo, promovendo ambientes mais equilibrados, seguros e humanos para todos.

